"70 anos Queirós? É muito tempo, gaita. E desses 70 anos vinte e quatro meses passámo-los quase sempre juntos."
Diogo Gomes
A Patrícia pediu-me que escrevesse alguma coisa relacionada com a nossa estadia em Cabinda, para o livro com que te pretende surpreender no dia dos teus 70 anos. Boa menina. Pelos vistos tivemos a sorte de ter bons filhos. Também eu os tenho!
Deu-me como prazo o dia 1 de abril.
Prometi-lhe que sim e que até lhe mandaria algumas fotografias, que tenho muitas.
Quem tem uma filha disposta a coligir uns escritos e fazer uma publicação pelos 70 anos do pai tem que ser muito boa filha.E eu sei, melhor que muitos camaradas com quem lidámos de perto, que tu és muito bom homem, embora um tanto já para o velhote, convenhamos. E teria havido outro remédio, condenados como estávamos a lidar de perto uns com os outros, circunscritos naquele quadrado de arame farpado? Mas 70 anos Queirós? É muito tempo, gaita. E desses 70 anos vinte e quatro meses passámo-los quase sempre juntos. Um lapso de tempo roubado da nossa jovem vida, completamente perdido num fim de mundo, a defender aquilo que nos não pertencia e para que nada contribuímos. Violências que a teimosia de um velho decrépito e o seu séquito de conselheiros e generais senis não souberam ultrapassar.
Acontece que por via deste meu vício do trabalho, que me tem mantido sempre ocupado, mas vivo, a agenda complicou-se. As minha boas intenções de fazer um escrito decente, circunstanciado, bem documentado e dentro do prazo proposto goraram-se. Acabei ontem uma obra para um amigo e hoje estou metido num avião rumo ao Rio de Janeiro para ver outros trabalhos misturados com férias. Aproveito as longas horas da travessia do atlântico para cumprir a promessa e ir escrevendo de memória, já que não me vejo a faltar ao compromisso que assumi com a tua filha Patrícia. Vai-me desancar por não ter anexado as prometidas fotografias. Outro dia o faremos. Aqui fica a promessa.
Não sou capaz de escrever de carreirinha a nossa saga como se de um diário se tratasse mas alguns episódios me saltam à memória em flashes fugases. Desde a preparação para a partida, em Estremoz, onde nem sequer nos conhecíamos, até ao embarque no comboio que nos levou direitos ao cais de Alcântara como se fossemos para a camara de gás. O desfile, as senhoras do movimento nacional feminino a distribuírem uns míseros maços de cigarros, mesmo para quem não fumava. Solidariedade balofa que bem se dispensava. Os últimos beijos, o adeus dos lenços, as lágrimas, enfim a despedida que para alguns foi definitiva.
Depois o embarque no Vera Cruz que no seu vai vem carregava os pobres coitados para a incerteza. A passagem por S. Tomé, com a ilha do Príncipe à vista, apanhou-nos, já de manhã, a jogar a lerpa no camarote não recordo de quem. Episódios inesquecíveis como o desembarque ao largo de Cabinda, com direito a salto para um batelão a subir e descer de acordo com o capricho das ondas, 3 metros abaixo da escada do portaló. De batelão navegámos a parte final da viagem até ao cais, que nos conduziria a uma terra vermelha, com um cheiro característico que nunca mais nos deixaria em paz. O Vera Cruz não poderia atracar a um cais que nunca fora construído. Os futurólogos não souberam prever a guerra e o transporte massivo de tropas a necessitar de um cais de acostagem mesmo que outras necessidades o exigissem.
Diogo
(continua)
É mesmo, caro Diogo!
ResponderEliminarUm tempo tão antigo, e tão presente, e tão contraditório... parece mentira que tenha havido um tempo assim. E no entanto houve!
Dá-nos fotos dele, que fazem falta, hás-de ter por aí!